Por que falar sobre a invisibilidade e silenciamento da mulher incomoda tanto?

Já abro o texto dizendo que se você é uma pessoa que não aceita igualdade de gênero e acredita que os homens devem permanecer no “topo” a qualquer custo, tudo o que irei escrever aqui pode (e deve) te incomodar muito, essa é a intenção. Não adianta pagar de desconstruído e não ser. Felizmente, existem homens que apoiam, compreendem e fazem questão de trazer a visibilidade para as mulheres também, esse é o ponto positivo de mantermos o diálogo. Quero trazer também uma reflexão, chamar vocês para papear mesmo. Afinal, minha mãe me ensinou que é “conversando que a gente se entende”. Então vamos, mais uma vez, conversar.

DISS

Definitivamente, o rap no Brasil está em ascensão. A quantidade de lançamento que temos tido não é pouca, mas quantidade não é qualidade e qualidade não é oportunidade. Só no ano passado foram vários EPs, videoclipes, mixtapes, singles e tantos outros trabalhos. Creio eu, que um dos principais foi o lançamento de “Sulicídio”, que causou impacto por todo o país e ocasionou diversas outras diss em resposta, inclusive a mais recente e talvez, a mais polêmica, “DISSrespeito a mulher”, de autoria da rapper pernambucana Lady Laay.

Na letra, Laay aborda várias situações, principalmente sobre a invisibilidade da mulher, falta de espaço e de oportunidade nos eventos de rap, além de falar sobre objetificação do corpo da mulher e denunciar, inclusive, um caso de violência. Disparou: “reclama de inviabilização nordestina, e faz o mesmo com as mina do próprio Nordeste”.

Em entrevista ao RND, Laay afirmou que “o som é uma resposta as atitudes e falas aos MCs de Pernambuco e do Brasil, que permanecem com discursos e ações machistas, misóginas e homofóbicas que ignoram o trabalho feminino no rap”. E uma critica também aos produtores, já que ela e outras MCS ouviram, certa vez, que o trabalho que elas faziam não tinha qualidade.

A matéria foi postada na fanpage do portal e observei vários comentários machistas feitos em relação à rapper, dizendo até que ela queria ganhar fama em cima de Baco e Diomedes. Não lembro se houve esse tipo de questionamento quando outras diss foram lançadas para os mesmos, engraçado. Afinal, para essa galera que “ama mc’s e não o hip hop”, só homem pode bater na caixa dos peitos e falar o que quer, é? Felizmente, foram deixadas mensagens de apoio também, a exemplo dessas:

Objetificação do corpo da mulher

Como se percebe desigualdade de gênero? Nas diferenças de oportunidades, nas diferenças entre cachê, na diferença do tratamento (para ser mais escurecida quanto a isso, dou como exemplo aqueles comerciais escrotos de cerveja que utilizam da imagem da mulher como se fossemos “algo” descartável e atrativo).

Há alguns dias Lívia Cruz postou uma foto com Djonga, eles fizeram um trampo juntos e deve sair em breve. Não é de agora, mas a cada foto que Lívia posta com um cara, logo surge meme e comentários escrotos, do tipo “ah, ele está comendo ela”. Cara, ela não é objeto, o Djonga é casado e fazendo esse tipo de coisa, desrespeitam não só a Lívia, mas a ele e também a esposa dele.

O bizarro é que nesses posts, os caras sempre se saem como os fodões, os pica das galáxias (por mais que não seja a intenção deles, mas sim de alguns fãs). É preciso por a mão na cabecinha e entender que não tem graça. Exemplo clássico: cara que sai com várias mulheres é garanhão, mulher que sai com vários caras é puta. Percebe aí a disparidade?

Se as MCs são fora do padrão, a estilo da MC Carol, por exemplo, vemos o desrespeito de cara, a pratica da gordofobia e até mesmo o racismo. Ela passou por diversas situações, diversas, a ponto de precisar registrar um Boletim de Ocorrência. Muitos já não a respeitam por ser mulher, outros odeiam as letras dela (ninguém é obrigado a gostar, sou mulher e tem músicas dela que detesto, deixando isso escurecido porque imagino que vai ter quem use esse argumento).

A Carol é uma mulher preta e gorda, além de enfrentar o machismo precisa lidar com a gordofobia e o racismo, é muita coisa para uma pessoa com seus 20 e poucos anos. Nós, mulheres negras, lutamos para desconstruir o imaginário brasileiro que insiste na excessividade de sexualidade sob nossos corpos. Lutamos para desmistificar o ideal de que mulheres brancas servem para casar, mas a pretinha apenas para a “foda”. Este é um ponto que contribui fortemente para uma das formas de solidão dessas mulheres. Leiam mais sobre isso aqui.

Invisibilidade e Silenciamento

É algo que, infelizmente, ocorre dentro do movimento com mcs, beatmakers, DJs, grafiteiras etc. O fato é que muitos não se dão nem ao trabalho de ouvir a track de uma rapper, mas já saem bravejando que é ruim. Preferem ouvir músicas que desqualificam a mulher, que falam de agressão física como se fosse algo normal e ainda dizem que está lindo.

Vejo muita merda por aí, e falando em merda, o tanto de merda que o Sant fala em “Poetas no Topo 1“, linhas carregadas de sarcasmo e criticas justamente as merdas que tem acontecido no rap, me trouxe uma reflexão. “Ah, Gabs, para de se vitimizar e mimimi”. Se por caso essas 1001 merdas saíssem da boca de uma mulher, qual seria a reação?

Como mulher e pela vivência que tenho tido, acredito que a mesma seria crucificada e TALVEZ, taxada “de ter uma lírica ruim”, tal como aconteceu com a Laay após o lançamento do clipe, não seria “engraçadinho” e nem geraria 1001 memes. Primeiro, porque mesmo sendo Sant, teve analista que nem se ligou na real mensagem que ele quis passar, imagine se fosse uma de nós? Os caras não prestariam atenção nas linhas meeeesmo (salvo exceções de alguns “analistas”). E voltando a Laay, arrumaram mil e um jeitos de critica-la pelo beat, pelo flow, técnicas, por isso e por aquilo, mas o principal não se deram o trabalho de captar: a mensagem. Não pegaram o feeling da track.

Quando uma mulher reclama e exige espaço e visibilidade, ela não quer ser “melhor” ou “maior”, ela quer igualdade e reconhecimento. Quando alguns se negam a nos ouvir e deixam na cara que nossa opinião e voz não são importantes para eles, estão nos silenciando, compreendem? Quando alguém larga aquele “não vou nem ouvir porque é mulher”, sem nem dar um saque no material, automaticamente está praticando o silenciamento. Já senti na pele o que é ser invisibilizada e silenciada, não é legal. Principalmente quando você faz um corre e não te dão os devidos créditos por ele. E oh, mais uma coisa, as mulheres não devem entrar em “Cyphers” por cota não, mas sim, pela qualidade do trabalho que fazem. Produtores, deem OPORTUNIDADE as mulheres para que elas possam mostrar do que são capazes, grata.

Ah, Gabs, eu realmente não saco mulher MC”. Se não sabe onde procurar, chega lá no youtube ou em outras plataformas e caça o trampo delas: Clara Lima, Drik Barbosa, MC Soffia, Dina Di (eterna ♥), Negra Li, Yas Werneck, Tassia Reis, Kmila CDD, Preta Rara, Nega Gizza, Áurea Semiséria, Debora Evequer, Mirapotira, Karol Conka, Karol de Souza, Brisa Flow, Rap Plus Size (Issa Paz e Sara Donato), Souto MC, Meire D’origem, Luana Hansen, Janaina Noblat, Lívia Cruz, Cintia Savoli, La Lunna e tantas outras que tem botado muitos caras no chinelo, mas que por falta de espaço e oportunidade não tem como exibir com tanta intensidade o próprio trabalho.

Caso isolado?

Antes que falem que é caso isolado, não é. No dia 30 de janeiro Cintia Savoli lançou o clipe/curta metragem da música “Lei das Quadradas”, que assina junto com Dark CTC 33, mas diversos rappers de Salvador, ao compartilhar o clipe, comentaram como se fosse uma música solo do Dark, como se Cíntia fosse invisível. Ela criou todo o roteiro e também foi uma das responsáveis pela produção e montagem do elenco.

Essa semana, durante uma entrevista ao youtuber Raí Faustino, a qual cobri pelo RND, e também ajudei na produção, pude conferir toda essa indignação. Cíntia comenta sobre o episódio e diz ter questionado essas pessoas, até porque, ela faz questão de ter seu espaço e está certíssima. Não estamos aqui para fazer escada pra ninguém, mas caminhar lado a lado, se necessário. Além disso, ela relata as dificuldades que passou nos momentos da produção do curta.

#MACHOCÍDIO

Ainda sobre invisibilidade, vocês lembram de MACHOCÍDIO? Cypher lançada em novembro do ano passado por Sara Donato, Luana Hansen, Souto MC e Issa Paz, que faz criticas também ao estereótipo de que mulheres mcs só fazem “love song”, além de meter o pau (tal como Laay fez) nos produtores que só colocam “macho pra tocar na sua festa”.

Machocídio é um tapa de luva de pelica na cara de muita gente. Na época que saiu, vi diversos MCs compartilhando, isso até ajudou a dar um up e fiquei contente por ter visto esse apoio. A track incomodou? Sei que sim, mas não teve a devida divulgação e alcance que deveria. Por quê? Pelo boicote. Falei lá em cima sobre isso, muitos não escutaram simplesmente pelo fato de ser feita por mulheres. Se você for lá no youtube procurar, só tem uma “analise” feita pra essa track, que foi a da Lívia Cruz.

“E papo de desconstrução aqui só serve pra sua mandíbula/ Sem massagem, sem desculpa, assume o que você diz/ No estúdio o peito cheio, na rua se contradiz/ Não assume sua postura, não sustenta não condiz/ Nessas linha tem projétil pros seus projeto de diss”

Ah, Gabs, mas se os caras fizessem analise de ‘Machocídio’, vocês iam falar que homem não tem moral pra falar de porra nenhuma quando se trata de mulher”. Machocídio foi necessária para trazer conscientização, se a mensagem continuasse sendo repassada seria ótimo. Não tem desculpa, sabe, analistas? É necessário criar alternativas. Vou pedir novamente, deem voz e espaço a essas mulheres. Não vou ser tão injusta, vi que alguns dos caras fizeram “indicações” da track em seus vídeos. No mais, fica aí a ideia para vocês que fazem analises e reações.

Violência

No primeiro tópico, falei sobre a Laay abordar uma situação de violência em sua diss, a partir disso, gostaria de deixar uns dados interessantes para vocês e que talvez abra os olhos de vocês para a gravidade que é a violência contra a mulher. O Mapa da Violência 2015: “Homicídios de Mulheres no Brasil” mostra que foram registrados 4.762 homicídios em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares e a maioria (33,2%) cometidos por parceiros ou ex-parceiros. O mapa ressalta que a residência da vítima aparece como local do assassinato em 27,1% dos casos. Isso indica que a casa é um local de grande risco para as mulheres.

No último balanço divulgado pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, em 2014, por exemplo, foram registradas 485.105 mil ligações, uma média de 40.425 atendimentos ao mês e 1.348 ao dia. O perfil do usuário do Ligue 180 em sua maioria é de mulheres (85,80%). Geralmente, essas mulheres são vítimas de violências praticadas por homens (companheiros, cônjuges, namorados, amantes) que elas têm/tinham algum envolvimento afetivo (82,53%). As demais denúncias estão relacionadas a relações familiares (11,20%), relações externas (5,93%) e homoafetivas (0,34%).

Ps: esses dados foram retirados do Mapa da Violência, mas anexados a pesquisa do meu TCC, que fiz junto a três amigas (Isa, Rubian e Wynne), e que questiona Em que medida as Leis Maria da Penha e do Feminicídio estimularam a redução das agressões à mulher em Salvador?

Ah, Gabs, que chato. E o que isso tem a ver com a cena, o que isso tem a ver com suas contestações e de outras mulheres?”. Tudo, sabe por quê? Porque quem canta o que não vive é hipócrita, tal como quem sustenta algo que não pratica. Não é a toa que nós mulheres não nos calamos mais e felizmente, em alguns casos recebemos apoio.

O mais recente foi de um ex integrante do DV Tribo, que agredia a ex companheira. Ela foi até um dos integrantes do grupo e contou sobre o ocorrido, afirmando não ter sido a primeira vez. O que aconteceu? Eles foram pelo certo e apoiaram ELA, desligando o agressor do grupo e deixando aberta a situação através de um comunicado e isso, para mim, significa respeito a todos os fãs do grupo.

Comunicado,Viemos através deste, comunicar a todas e todos o desligamento de Matheus Aragão, de qualquer atividade…

Posted by DV Tribo on Friday, February 3, 2017

Juro que não consigo entender os reaças/machistas/misóginos/homofóbicos/transfóbicos que dizem cantar rap. Será mesmo que vocês sabem o que é rap? Porque realmente acho que não, vocês devem e estão no caminho errado. Como é que fazem parte do movimento hip-hop e são opressores? Que lógica é essa, de “teoricamente” lutar contra opressão sendo opressor? Qual o questionamento que vocês trazem? O que vocês fazem pela comunidade? Oxente!

Oportunidade

Segundo a rapper carioca Yas Werneck, o que falta muito são os convites para eventos, existe uma ausência de oportunidades. “Março está chegando e aí os convites vão aparecer, e só. […] Fico triste quando olho a volta e vejo o que eu podia estar fazendo e não estou porque o contratante acha que o menor do trap de maconha e sexo chama mais público“.

Acredito que em março os convites aparecem devido ao fato de ser o “mês da mulher” e ser ainda mais necessário que estejamos em evidência, mas penso também que esse ritmo poderia ser mantido durante todo o ano, não somente em março. As mulheres precisam ser vistas, precisam falar, precisam ter a oportunidade e dignidade de mostrar aquilo que fazem.

As vezes é necessário gritar uma, duas, três, quatro, dez vezes para sermos ouvidas. As vezes estamos na defensiva e nos impondo o tempo inteiro, já que quase nunca somos ouvidas e quando somos, ainda nos taxam de reclamonas e desmerecem nosso trabalho, não dialogam, não se permitem ouvir, mas se ousam até a querer falar por nós, dizendo o que é bom ou não. Cara, cada um sabe de si. Minha avó costuma dizer que “quem tem sua dor é que geme”, aprendam a se colocar no lugar do outro e tentar olhar as coisas por outra perspectiva além da sua. Ouça sua mãe, sua irmã, suas tias, amigas, colegas. Ouça essas mulheres.

A paciência acabou e nós não vamos parar de lutar. É cansativo? É! Muito, muito mesmo. Mas se ficarmos caladas continuaremos sendo jogadas pro canto, esquecidas e desvalorizadas. Sigamos, mulheres. Sejamos fortes e cada vez mais unidas. Homens, ouçam as nossas vozes e acima de tudo, nos respeitem.

Minha recomendação para ouvir depois ao final desta leitura, é essa track da Sara Donato que fala justamente sobre preconceito, quebra de padrões e vários outros adendos citados no texto.

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