Uma mistura de simplicidade, alter ego e muito Rap, com vocês Diego KAIRO

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Iae galera como vocês estão ?

Eu disse que esse mês ia ter mais conteúdo e cá estamos novamente.
Algumas mudanças de planos, mas por um bom motivo.

Eu e o Arthur Venturi (meu melhor amigo, também produtor do Sarau Papo de Mina, melhor Dj e jornalista pelo Bocada Forte) estamos montando mais uma matéria colab pra vocês.
Desde o começo do ano eu já queria falar sobre eventos, isso porque tive a oportunidade de conhecer um dos festivais mais cobiçados que rolam hoje em SP, o Lollapalooza.
Foi uma experiência totalmente diferente de todos os eventos que eu já cobri na vida. Desde então eu queria falar sobre os eventos culturais e de música que rolam pela cidade, mostrando principalmente a ofuscada que nós minas temos dentro do cenário em si e também sobre a ausência de artistas negros em grandes festivais de música que hoje acontecem no Brasil.
Eu não poderia escolher alguém melhor que o Arthur pra dividir essa pauta comigo, então nos próximos dias essa matéria sai aqui no Fala Memo Produção e no site do Bocada Forte.

Dito isso, continuemos falando dessa matéria aqui, que meu Deus do céu, me deixou de perna bamba, primeiro por conhecer a história do nosso entrevistado da vez e depois pela responsa que é transcrever isso.

Foi uma surpresa enorme essa matéria, e um prazer que não tem como medir. Quando esse cara começou a contar sobre ele, a vida, a família, os sonhos, eu me vi em muitas de suas falas, parecia um espelho, e isso me deixou arrepiada.

Assim como eu, ele também é adotado e vem de família branca (a mãe é branca mas pai é negro de olho verde – no qual nosso entrevistado queria muito esses olhos rs), e que desde cedo teve que lidar com toda a informação que ser adotado e ser uma das poucas pessoas negras na sua família traz consigo. Saber nas entrelinhas de onde você veio e algo que só quem é adotado entende os questionamentos, as dúvidas, e o quanto isso te faz ser alguém um tanto quanto curioso e questionador.
Incluindo esse contexto ainda dentro de um recorte racial, ser uma pessoa negra no Brasil, é foda, e só quem é sabe qual é de verdade
Graças ao professor de história do ensino médio (Israel Nicoletti), a pauta sobre a necessidade das cotas, a representatividade negra no Brasil e principalmente as escolhas e caminhos que um jovem negro de periferia tem, nosso entrevistado pôde refletir e amadurecer ainda mais sobre sua existência, seu papel no mundo e sua importância não só como artista e produtor, mas também como homem negro.
Ele é filho da Dona Quitéria e do Seu José, que juntos ensinaram a ele valores e princípios que moldariam o homem no qual ele se tornou e vem se tornando.

É diferente o mundo quando você é adotado. Ser uma pessoa adotada e ser alguém especial, fui escolhido

Tendo trocado seu vulgo recentemente e criado um alter ego, justamente por uma questão de evolução e descobertas internas e externas, ele chega com muita bagagem, história e música pra compartilhar com a gente.
Buscando uma melhoria pra si e também pra sua família, a música vem como resgate e libertação ao menino sonhador.

Graças ao amigo Pardall (do grupo Quarta Dimensão) ele ingressou na Batalha do Tucuruvi, como MC e também como produtor. Dentro da Batalha ele pôde conhecer pessoas, entender ainda mais a loucura que o movimento Hip Hop é, e principalmente começar a escrever sua história dentro dessa cena.
Procurando sempre evoluir, ele vem num processo de se profissionalizar cada vez mais para poder viver de um sonho.

Não é pra existir cota? Então dê condições a galera da quebrada assim como é para outras pessoas

Geminiano nato, ansioso e muito coração, esse cara transparece verdade e simpatia. Se não fosse músico, seria professor de filosofia/história ou ator (será que veremos ele numa próxima novela da Globo?)

Ele é um cara preto de quebrada (Tucuruvi x Mairiporã), no auge dos seus 23 aninhos, curte o Raffa Moreira (hey BRO) é Mc, artista do selo Rancho Mont Gomer e também um dos produtores e apresentadores da Batalha do Tucuruvi, com vocês, Diego KAIRO.

 

FALA MEMO PRODUÇÃO – Como e por que começou a cantar Rap?

Eu comecei a escutar e cantar Rap na época da escola, ali em meados de 2012/2013. Desde antes eu já sentia uma vontade de me expressar, independente da forma que fosse, sabia que tinha que me expressa e que tinha que ser através da arte. Eu já gostava de música porque meu pai sempre ouvia muita música, sentava na sala desligava a TV ligava a vitrola e fica até altas só escutando música do interior do Pernambuco, as pessoas chamam de “brega” de forma pejorativa, enfim, eu ficava brincando e ouvindo com ele. Cresci e  na adolescência já comecei a ouvir mais Rock, mas quando dei uma atenção no Rap Nacional, descobri o que eu realmente queria fazer.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Quais são suas principais influências e inspirações ?

Minhas influências são geralmente meus amigos mesmo, os quais eu trabalho. Gosto muito dos sons do Quarta, os irmãos do Rancho não preciso nem falar, tem meus irmãos do Levram  Studio também, os moleques da 7L (Sétima Linha) lá de Franco da Rocha, os correria da minha quebrada, BD, Lucas Rimar. Fora esses que estão na minha realidade diária,  eu gosto bastante também de J.Cole, FlatBushZombies, Emicida, Dexter, Ja Rule, Charlie Brown Jr, Michael Jackson, SABOTAGE!!! Vixi muita gente, Marechal, enfim se eu for falar de todo mundo vamos ficar o dia todo.

Minhas inspirações … minha inspiração é  a vida ta ligada ? tipo, eu observo muito acho que isso é meu maior trunfo, onde eu olho busco a oportunidade de aproveitar um detalhe que vira Rap, uma conversa, uma situação, uma paisagem, uma guia de algum amigo que ouço e chapo, sou inspirado pelo que me cerca, seja bom ou ruim.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Como vc vê a cena atual do Rap? O que poderia melhorar e o que fode a cena?

Mano a cena do Rap é um bagulho cabuloso de mensurar, porque você vê muita gente ganhando grana e em destaque só que muitas vezes nem é tão bom. Se você enxergar do princípio de criar arte de fato e não “só” ter qualidade, tem muita gente boa mas que não consegue um determinado destaque, e digo gente que trabalha e investe também, o Rap agora tem mais espaço, porém pra um “nicho de Mcs” louco isso né?  Acredito que se os Mc’s buscassem mais a inovação do que o sucesso imediato o Rap ia começar a tomar muito mais destaque.

O que fode a cena é a saturação de conteúdo, a gente se limita a fórmula que deu certo, de 2015/16 pra cá já saiu mais cypher do que não sei o que, tipo você saturou um “modelo de rap”. Foi inovador pra cena na época, porque no Brasil ainda não existia essa cultura dos cyphers, na verdade já havia o cypher mas não tinha esse nome, depois isso se popularizou e agora eu acho que poluiu tudo, mas obviamente é inegável a importância do estilo de junção de artistas para o desenvolvimento da cena, e também reconheço total o esforço de diversos artistas em fazer cyphers de qualidade. Ah os boy e a criançada que não entende e quer opinar cheio de autoridade, fode a cena tbm.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Por ser um artista negro, como você se vê dentro de uma cena que mesmo sendo criada por negros hoje é de maioria branca e muitas vezes racista ?

Mano, os cara tem deixado gente branca dizer o que foi e o que não foi dentro da história dos negros. Eles chegam, tomam o que é nosso e mudam a forma como aquilo nasceu. Infelizmente isso também tem acontecido no Rap. Os mano branco que “estora” leva o bonde deles (de mais brancos) pros baguio e os preto que sempre foram segregados, começam a ser mais segregados dentro do seu próprio movimento, chega ser engraçado né ? Eu to nesse meio, jamais deixaria de trabalhar com um Mc branco ou menos prezaria a arte dele pelo mesmo motivo, porém é um fato que muita gente branca entra no baguio achando que é gozolândia, faz o que bem entende e sai bonito na foto, tipo show em casa de tortura de escravo rs.  Agora temos, EmicidaBK, Djonga, Rincon, que começam a trazer um pouco mais de representatividade por estarem no mainstream. Eu me vejo como responsável por isso também, sinto que eu tenho que me esforçar pra ser foda porque tem muito pretinho que precisa de um exemplo, de alguém igual a ele que mostre que é possível sim, mesmo sofrendo como um negro sofre nesse brasa.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Quais seus planos pro futuro? Seus sonhos e desejos?

Bom to próximo de soltar o meu primeiro EP (M.L.D.C) que foi inteiramente produzido no Rancho Mont Gomer, com beat do Eloy, Tadeu e Estranho. Depois que estiver tudo no ar, vou querer rodar umas batalhas e festas por ai para fazer o lançamento do EP, mas tudo bem simples mesmo, por enquanto é isso, toda e qualquer informação ainda é segredo, mas após lançar o EP a meta é soltar singles, fazer os feat com minha rapazeada e depois ver se vem outro EP ou qualquer outro projeto.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Qual o maior diferencial do seu trabalho ? O que podemos esperar do Kairo ainda em 2018 ?

Po, o diferencial do meu trampo é que eu escrevo só aquilo que vivo, de cabo a rabo, seja bom, ruim, uma treta com a preta, ou uma bad muito grande. São paradas que são minhas, que são eu, aliás só existe um Kairo no mundo, e eu acredito que essência não é fazer um Rap super parecido com os dos anos 90 e sim falar do que você vive, quem você é e o que você sente, isso é essência . Para 2018 tem mais dois clipão ai que serão produzidos pela Visionice Produções e EPzão, e dirigidos pela Thais Yokoyama que é quem dirigiu o clipe da faixa Equilíbrio e que co-dirigiu junto ao Felipe Freitas o clipe da faixa Vida Breve.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Você passou por uma série de mudanças ao longo da sua carreira, não só com o nome artístico, mas vida pessoal e afins, por que de tantas mudanças? O que elas te proporcionaram? O que você busca?

Mudanças …

Mano a vida é uma ponte que a gente obrigatoriamente tem que atravessar, não tem boi nem meio termo e a gente não controla ela, logicamente nada sempre vai ser sempre do mesmo jeito, e ai que surgem as mudanças, cada mudança que eu passei na vida foi uma forma de evoluir, de aprender, de me corrigir, nem sempre elas são bem vindas, e eu não sei lidar muito bem com mudanças, mas sempre encaro todas da melhor forma possível, eu busco só ficar suave, olhar pra trás e dizer, “eu consegui“.

FALA MEMO PRODUÇÃO – Afinal, quem é o Kairo?

Tendo deixa o vulgo antigo de lado (Young) por uma questão de evolução e mudanças internas e externas, hoje eu sou o Kairo, um moleque curioso e quem tem uma vontade muito grande de conhecer a vida e tudo que ela pode oferecer, simplão também que só se apega nas coisas simples, geminiano tipico, locão kkk, ama o Rap, ama a família e os amigos e faz tudo por eles, esse é o Kairo.

O que falar depois disso tudo não é mesmo?

Confesso que eu e o Kairo nunca tínhamos conversado muito, e no dia dessa entrevista a conexão foi tão forte que eu passei dias meio desnorteada. É uma história simples, de certo modo, típica, mais um mano preto, de quebrada, tentando vencer na vida através da arte. O diferencial, o sentimento que envolve tudo isso, é único, é só dele.

Para mim como mulher preta, feminista, jornalista, presente na cena do Rap a uns 6 anos, ver gente como eu fazendo a diferença, deixando seu nome marcado na história, é algo que não tem dinheiro no mundo que pague. Ter um sonho, se apegar nele e fazer de tudo para realizá-lo é uma das coisas mais bonitas que uma pessoa pode fazer por si e por outros, direta ou indiretamente.

O Diego é a prova de que quando a gente realmente quer a gente corre atrás, que não tem essa de vítima, a gente entende quem é, entende nossa história, nossas raízes, nossos valores e busca sempre evoluir, sem precisar foder com a vida de outras pessoas. É papo de ter um objetivo e fazer de tudo para realizá-lo, é ter foco, determinação, vontade, amor.

A história do Kairo é mais uma daquelas que nos enxe de emoção, que nos faz refletir sobre privilégios, sobre vantagens, sobre escolhas. A vida não foi fácil para ele que perdeu seu pai logo quando as coisas começariam a esquentar, e que ele se viu como o homem da casa, afinal, Dona Quitéria precisaria dele como nunca. Mesmo com tantos obstáculos, com tantos dias ruins, a vontade de ser mais, sempre se fez presente, e por pior que tenha sido o percurso, ele ta ai, crescendo cada vez mais e marcando seu nome definitivamente dentro da cena do Rap Nacional Paulista.

Eu não tô nessa porra pra brincar

A Zona Norte vem crescendo cada vez mais, são artistas incríveis surgindo todos os dias, selos, produtoras e gravadoras apoiando o sonho de meninos e meninas que querem viver da arte, da cultura, da música e entendem que assim como foi pra eles, essa é uma das ferramentas de transformação mais eficaz que poderia existir.

Foi um prazer imenso escrever essa matéria, um prazer imenso conhecer melhor não só o Kairo, mas também o Diego, que hoje é um grande amigo e sentir tudo que ele tem para mostrar, foi algo único, uma matéria que me fez refletir, aprender e principalmente admirar ainda mais o homem e o artista que é Diego Kairo.

Que a vida proporcione a ele, e a todos os que já passaram por aqui vôos cada vez mais alto, que essas matérias sirvam como START para um lindo e longo caminho que está por vir. Só posso agradecer por isso, por ter o privilégio de conhecer e me apaixonar por pessoas tão encantadoras como os meus amigos.

Logo mais tem matéria nova, fiquem de olho 😉

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