Djonga canta pros seus

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Agora com uma trinca de discos, Djonga quer resgatar o que lhe é de direito.

Pra começar a falar do Djonga eu estava pensando o porque dele ser um dos rappers mais representativos da cena atual do rap nacional. Ouvindo esse disco é fácil de entender: é porque ele conversa com quem está ouvindo, ele fala com seus fãs e haters, fala até com ele mesmo, papo reto sem fazer curva. Tenho quase certeza que a sensação de uma pessoa negra, periférica, do corre ao ouvir e ver o Djonga é diferente. Porque como uma pessoa branca vou ouvir, vou chapar no som, vou entender, mas a sensação vai ser outra. Ele conversa com todo mundo, mas é principalmente para os seus iguais que expressa os seus sentimentos. É da gente que habita a sua mesma pele, principalmente, que ele quer (e já fez) mudar vidas. Menos importam as punchilines e mais o papo reto. A sua habilidade é dialogar com o ouvinte e você vai ouvir o que ele quer falar. É uma responsabilidade que ele mata no peito igual camisa 10 e não se esconde do jogo, seja na paz ou na guerra.

É com um Hat-Trick que o Djongador brilha nos campos da música rap. Três anos e três grandes obras. O conceito do disco começa a ser mostrado desde o primeiro verso, Djonga foi pro mundo conquistar o que era seu, o que lhe foi tirado e está voltando de mente e mãos cheias. Mesmo que isso significasse uma heresia para quem não queria ver um preto no topo. E já que ele divide o que conquista, a alcunha de Deus lhe cabe muito bem. A questão é que o menino que queria ser Deus passou grande parte da vida sendo estereotipado e apontado como Ladrão, realidade que todo jovem negro já deve ter passado. A cultura branca e o racismo estrutural impõe esse estigma mais uma vez sobre os ombros das pessoas negras. Essa mesma cultura que busca o embranquecimento de artistas negros depois do sucesso.

Além disso, o disco é um grande grito (nem tão gritado mais) antirracista e que aponta as contradições das pessoas brancas. O rapper decide então usar isso de forma positiva, ele vai pegar o que é seu por direito, o que lhe foi tirado através dos navios negreiros, da escravidão, da marginalização, do apagamento de parte de sua ancestralidade e memória, e vai levar para os seus semelhantes. Ele vai levar auto estima por exemplo, mas não um egocentrismo vazio, porque ele só se considera um Rei por viver entre Reis e Rainhas. Ele só é porque os outros também são. É uma ideia de coletividade negra que Djonga constrói nas suas músicas, união que quanto mais cresce mais se torna forte e sólida. Ao mesmo tempo que você o ouve falando de suas vitórias “individuais” tirando sua onda, ele não está satisfeito, a busca é por ampliar o numero de pessoas negras e periféricas ao seu lado, seja na arte ou nos negócios. Djonga entende muito bem seu papel de elo nessa corrente. O papo direto com seu público alvo é a sua forma de colocar a ideia na cabeça do ouvinte: faça dinheiro limpo, seja um empresário, não se esqueça de onde veio, roube honestamente, fuja do crime. A ideia é fazer com que os negros se sintam Reis e Rainhas não somente ao olhar no espelho, mas também ao ver o seu redor, e assim se dissemina também a sua ancestralidade e representatividade.

Esse resgate da ancestralidade pro Djonga passa principalmente pela sua família, pela figura da sua Vó, mas não somente, pois tem os seus amigos, os seus pais, tem a sua fé, tem o hip hop, frutos da diáspora africana. E como um bom historiador que é, sempre parte do presente. É do dedo apontado de hoje, é do racismo de 2019, é do genocídio de negros do século 21, que o rapper vai até o passado. Mesmo que ele não conheça toda a história dos seus antepassados, ele conhece uma parte, talvez a pior parte, e essa é a síntese do seu monólogo em hat-trick. Pegar o que é seu por direito para que pelo menos assim não seja em vão o sangue de seus ancestrais. É pelo hoje e pelo ontem que a luta do mc está ancorada. Em sua Vó Djonga enxerga a ancestralidade do seu lado, uma mulher descendente de escravizados que quebrou barreiras atrás de barreiras. Para além, a ancestralidade continua sendo construída, os tataranetos do rapper vão poder ouvir seus ancestrais. É devido a esse fato que eu enxergo também a intencionalidade em colocar essa figura representativa no centro do disco. O disco é um lembrete pra ele também, de não se esquecer de olhar para os seus, não esquecer da sua essência. Não seria diferente, até porque Djonga tem mais raíz que um pé de abacate. É na levada de Bença que todo o conceito do album é explicado, como o racismo é entendido desde cedo e a importância de se chegar no topo. Mas quando você chegar la o que você vai fazer? Pra quem você vai fazer? Pra onde você vai? São esses questionamentos e ideias que norteiam Ladrão.

O cerne antiracista do disco estão, além de Hat-Trick, em Bené, Ladrão e Voz. Djonga vem com um flow bem diferenciado em Bené, uma mistura de boombap com trap, faixa que é quase uma carta para aqueles que estão no mundo do crime. Ele ta falando diretamente com os pequenos traficantes, aviõezinhos, aqueles que estão na base da hierarquia. Mostrando as contradições do tráfico, mais do que todo mundo ouvir a ideia é que se chegue nos ouvidos das pessoas certas. Em Bené as rimas são ilustradas, elas tomam forma como em um filme, mas os versos parecem mais com um documentário sobre as contradições e ilusões da criminalidade. O resgate nessa faixa é dos manos que entraram ou estão em contato com essa realidade. A faixa mostra também muito bem o que seduz no crime: ascender na vida de alguma forma, ter grana, poder, mulher, ser herói da quebrada, uma grande ilusão porque o dinheiro é sujo e quando o crime quebrar não vai sobrar ninguém. É por isso que o refrão é direto, “pega a visão, não vá se perder”. É por esses que a caneta do rapper não para, essas vidas tem que serem salvas. O título da track é bem sugestivo, pra quem não conhece Bené é um personagem do filme Cidade de Deus, levanta um império juntamente com Zé Pequeno, mas é um personagem que foge totalmente do esteriótipo criado em torno do “bandido”. Bené era respeitado, adorado pelos moradores, pois era uma pessoa gentil, doce, amorosa. Sua vontade era sair do tráfico, ter um vida “coqueiro”, como Djonga descreve. O destino acaba sendo cruel com Bené. “Reis Africanos no Império errado, mal sabem que tem um Império herdado.” A primeira missão desse ladrão é tirar os seus irmãos desse mundo, pois o Mc sabe que tem vários Benés nas favelas, que mesmo sem outras opções estão a procura de criá-las de algua forma.

Na faixa Ladrão nos é revelado o outro plano do nosso Robin Hood. Mas antes eu gostaria de mostrar que apesar da alcunha de ladrão ser imposta sobre o Djonga, é a cultura branca quem vive roubando os negros. Seja na riqueza explorando o território e o povo africano ou na cultura tentando embranquecer a cena do rap nacional por exemplo, os brancos buscam o domínio, de forma suja e desonesta. A legitimidade do rapper no uso do vulgo Ladrão como algo positivo vem daí, depois de tanto tempo sendo lesado, chegou a hora de tomar as coisas e os lugares que são dos negros. O plano é tomar a grana desses caras, tomar e criar os espaços, sem contar nas verdades jogadas na nossa cara no versos. Os brancos ricos não sabem dividir, a classe média se acha superior, mas depois que um artista negro ascende todos eles querem uma foto ou querem reivindicar alguma ponta no trabalho da pessoa. Essa track é tão dedo na ferida da branquitude que a cada palavra versada pelo Djonga se percebe que ele nunca vai se moldar ao mainstream branco, é justamente o contrário, isso se o rapper quiser também. As linhas em que ele fala sobre sua arte são as melhores do disco, sua arte é pra incomodar (e já tem incomodado), vem pra ser indigesto, principalmente para esses brancos. É como um quadro de Basquiat, enquanto você ta terminando de entender 1, já vem mais 100 pra cima dos seus olhos. Um artista que te causa um estranhamento, as vezes bom, as vezes ruim. Causa inquietude, faz a gente buscar, investigar, entender. Um quadro de um negro pintado para os negros, cabe a nós brancos buscar sensibilidade para entender de fato essa arte.

Voz, faixa com Doug Now e Chris MC, é como aquele verso dos Racionais: “27 anos contrariando as estatísticas”. E se esse som era pra ser só o beat ou o silêncio, na real são vozes eclodindo no tempo e no espaço. Doug Now chega escancarando toda estrutura racista da nossa sociedade, relembra do assassinato de 5 jovens inocentes com 111 tiros por parte de policiais militares. Quando um jovem branco milionário, com sobrenome Batista, matou um ciclista ele foi absolvido. Ou seja, há uma seletividade tanto das pessoas que morrem, quanto das que vão ou não para a prisão. No Brasil há um encarceramento em massa de pessoas negras, mas quando PMs matam Claudia Silva Ferreira, uma mulher negra, arrastando-a pela viatura nada acontece. Mesmo no meio de tudo isso os três artistas negros estão vivos, construindo sua arte, privilégio CONQUISTADO. Chris vem num refrão bem a cara dele, cantando que eles vão continuar sendo quem são. Djonga permanece no raciocínio do som, de mostrar que está vivo, vivo pra mudar vidas. Um papo reto muito interessante é quando ele aborda que ser branco não é apenas a cor, mas é toda uma estrutura e cultura racista, de inferiorização das outras raças, de uma justiça seletiva, de uma educação seletiva, a cor é a forma de distinguir quem pode ou não. O rapper se coloca como um artista negro que tem uma postura totalmente contra ao racismo, sei que isso não é novidade, mas é sempre bom reforçar. Com esses artistas, iremos ver os pretos sem matar ou roubar no nosso jornal.

Mlk 4tr3v1d0 é uma música de Jorge Aragão que Djonga genialmente traz pra sua realidade, que não é muito diferente do samba, sendo cantada a capela. Essa canção traz tudo que Djonga apresenta no disco, a ancestralidade, pois o samba vem antes do rap, gênero que é filho dos escravizados. E como o rap, o samba teve que passar por cima de barreiras e esteriótipos, além de ter passado por uma tentativa de embranquecimento mais profunda. É feito então um pedido de respeito, respeito pelo rap, pela caminhada dos artistas, desde os primeiro até os que vão se suceder. Respeito também por quem faz o rap acontecer nas ruas, nas rodas, nas batalhas, ali é a escola do hip hop. Simplesmente foda a sacada do Djonga em colocar em música antes fechar o disco.

A última track do disco é Falcão, Djonga analisa o seu ano de 2018 e sua vida num geral, o ano em que finca os dois pés no rap e na música brasileira. O que eu achei mais foda dessa música é talvez a contradição que o músico se encontra, de estar no topo, de estar ficando rico, mas não poder trazer de volta os amigos que se foram, não poder parar com todo genocídio negro nos morros. Isso volta pra primeira faixa, que ele só é quando os seus iguais são. Só ele chegar no topo é inútil, se ele não tiver os Reis e Rainhas do seu lado, é por isso que há esse resgate, a busca por tomar de volta o que lhe foi tirado. Ao mesmo tempo que Djonga se identifica com os Reis e Rainhas, ele se identifica com os corpos negros sendo assassinados nas ruas, nas favelas. Mesmo alcançando parte do objetivo pessoal, ainda há o vazio causado pelo racismo estrutural. É por isso a necessidade de saber pra onde voltar, de saber olhar pra trás, pra quem olhar. Essa é uma brisa muito doida se pararmos pra pensar, pois é um paradoxo muito cruel ser uma pessoa negra conquistando sucesso enquanto seus iguais estão sendo assassinados no país inteiro.

As duas loves songs são, pra mim, as melhores feitas por Djonga depois de Solto. Leal é hit, diferente de tudo que o artista tinha lançado. O conceito de lealdade é muito bem explorado nessa track, até porque com o sucesso crescente do Mc, a estrada se torna cada vez mais o lugar em que ele “vive”. A saudade é inevitável e nesse sentido chega a ser saudável, é como o título de um filme de Karim Ainouz, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo“. Mais do que as juras e promessas, é a liberdade que é a prioridade da relação, mais do que o compromisso de fidelidade, é a lealdade que impera primeiro. As vezes a gente precisa de espaço numa relação, isso não quer dizer que iremos trair, independente do modelo de relação que você escolha. Há um vídeo na internet que o Renato Russo fala sobre essa diferença do que seria fidelidade e lealdade. Tipo já é uma track mais explicita, mas que contem a mesma mensagem, o amor vivido de forma mais livremente, sem rótulos, sem tantas amarras. O Mc Kaio vem com uma levada no refão muito boa, ele é um funkeiro mineiro e podem procurar suas musicas que vocês não irão se arrepender. Essas são as duas loves songs do disco, mas Djonga foca alguns refrões na ideia desse amor. O que é muito interessante, sempre falando dessa forma livre de se relacionar, é o romance de um anti-herói como Lampião com Maria Bonita, um casal que tem a sua luta tanto individual quanto coletiva. Mesmo no meio de um caos sociopolítico, eles encontraram espaço para o amor em uma de suas formas mais puras. Recomendo o filme Luneta do Tempo para entender um pouco mais sobre a poesia dessa relação.

Deus e o Diabo na terra do Sol é a faixa que merece uma atenção especial. Também é o nome de um clássico do cinema novo nacional que foi dirigido por Glauber Rocha. O diretor é o grande expoente desse movimento brasileiro que buscava uma estética nova e diferente da Hollywoodiana. O rapper mesmo canta que pra não ficar estático, ele resolveu ser uma pessoa estética. Quero aprofundar mais essa influência de Glauber Rocha na obra do Mc de BH e por isso serei mais breve nessa análise. Enfim, um dos sons mais esperados, que cada vez que eu escuto ela fica melhor. Djonga, assim como Glauber, não fugiu do contexto político do país, abordou sobre a facada no “mito”, aquela que ajudou a eleger esse desgoverno, e veio falando sobre os crimes socioambientais que estão assolando o nosso estado de Minas Gerais, tudo a custa do lucro, do capital, das empresas privadas. É esse mesmo capital que impede que Djonga veja mais pessoas de sua cor nos seus shows, tanto se fala em meritocracia, mas não há de fato se muitos vivem com pouco e poucos com muito. É esse um dos motivos pro Mc vestir essa capa de um anti herói, do ladrão, ou seja, ele foge dessa figura do bom moço, que é perfeito, que nunca erra, que prega um falso moralismo. As figuras de influencia são também de “anti heróis”, como Lampião, Bené, Malcolm X. E se o rapper mineiro é Deus, Filipe Ret é o Diabo, muito antes de Baco. E “não é Eduardo e Mônica, é Brumadinho e Mariana”, a gente não ta vivendo o romance de Renato Russo. Ret é muito versátil em suas rimas, misturando vida cotidiana com o nosso caos político. Alguns vivem com um medo ilusório do comunismo, enquanto o capitalismo feroz está batendo na nossa porta todos os dias, enquanto os EUA querem nossas reservas de petróleo, isso é real. É muito bom ver a volta do Ret pra além do rap que é somente comercial ou radiofônico, sua caneta tá mais afiada do que nunca, ele escreve e sabe colocar o seu flow em qualquer situação. Esse texto da Isabela Rosa é sensacional para entender melhor a faixa: aqui.

Duas coisas que fazem parte do disco e chamaram a minha atenção é a participação da banda Rosa Neon nas faixas 1, 3, 4 e 10, que traz um toque diferente em cada track, mas que complementa o disco sem igual, ouçam no youtube. A outra coisa são os samples usados, em Ladrão tem o musicasso Guerreiro de Atitude do Mc Hudson 22 e na Falcão tem Romaria interpretada por Elis Regina, que parece ter sido uma influencia pro Djonga nesse disco. Todos os samples casam muito bem com as faixas, principalmente os versos que ecoam na voz de Elis, aliás a cultura do sertanejo tem seu lugar nesse disco e se relaciona com a vida dos negros no Brasil. “Favela é o sertão”. Tem também o áudio da Vó de Djonga mandando um recado para nós ouvintes, o disco foi inteiro gravado na casa de sua Vó, vem daí toda a aura das canções.

A capa é bem representativa, é o conceito do ladrão, do Robin Hood, levando o que lhe foi tirado, mas levando pra quem? Na capa está a Vó de Djonga sentada no sofá.

A produção fica por conta do Coyote Beatz e co-produção do Thiago Braga. A faixa Tipo tem beat do JNR Beats e Deus e o Diabo… de Fritz, o restante é do Coyote. A produção executiva fica por conta da Ceia Ent.

Obs: muito trap de mensagem.

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