Delatorvi fala sobre trajetória, estética e ser um jovem negro em ascensão

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Delatorvi é um MC de trap do interior de Minas Gerais e vem conquistando cada vez mais espaço na cena nacional. Tem o respaldo de Emicida, Djonga, BK, Aori, entre outros grandes nomes do hip hop no Brasil. Não é atoa, pois Delatorvi tem trabalhos sólidos, além de trazer uma estética muito particular que sofre influência tanto da sua ancestralidade como de grandes artistas mundiais, como é o músico Prince. Além de ter lançado a música “Zircônia” recentemente, ele e sua mob tem planos de lançar um vídeo clipe nessa sexta-feira. Nessa entrevista ele fala sobre isso e muito mais.

Gostaria que você falasse um pouco da sua caminhada no hip hop e no trap, seu começo e suas influências.

Delatorvi: Minha caminhada no hip hop, basicamente começou com o meu irmão. Eu bem jovem meu irmão me levou num show do Racionais, eu tinha, sei la, uns 8 anos. Ele já ouvia muita coisa, Consciência Humana, SNJ, DMN, RZO, Sabotage, fora os raps gringos. Ele ouvia muito Ice-T, Public Enemie, Wu-Tang, então eu tinha essa visão coletiva e isso me aproximou muito do rap. Mas eu comecei a escrever e a gravar na era que o Trap ja estava crescido nos Estados Unidos. Eu já acompanhava mais próximo, então eu sabia o que estava em alta la. Além disso havia sarau de poesia também, que na quebrada rolava direto. Então, esses foram os meus primeiros contatos direta e indiretamente com o rap. Já as minhas influencias diretas, é inevitável Racionais, me espelho muito na visão mercadológica do Ice Blue, cara que eu sou muito fã no rap nacional. O Black Alien por sair do esteriótipo do negro agressivo, ele tem uma lirica intelectual, que eles esperam menos da gente e eu acho muito foda, ta ligado? O Matéria Prima aqui de Minas Gerais, que foi um dos primeiros a se destacar por aqui. A minha grande influência artística mesmo, que compõe a minha personalidade é o Prince. Pra mim o maior artista que eu vi, falando de um modo geral, é um cara que faz mágica, na estética até os conceitos, as cores que ele utiliza. Então sempre me chamou atenção esse trabalho do Prince, sai da linhagem de rap, mas é o cara que me influencia mais na música de modo geral. Eu sou o Jovem Prince!

Desde seu primeiro trabalho HNMB, você já se mostra bastante conceitual, tocando em temas como o racismo, como é esse processo criativo, de fazer um disco ou de criar uma música?

Delatorvi: Então, o HNMB é da hora né, pois já começa com um conceito forte. Eu me lembro que quando eu saía pra vender as mixtapes de mão em mão depois do meu serviço, eu trabalhava pra um italiano, numa padaria. Então eu saía do meu emprego fixo pra capital Belo Horizonte, que fica mais ou menos uma hora da onde eu moro que é em Nova Lima. E quando eu explicava o que era HNMB pra pessoas elas tinham uma reação muito controversa, tipo de até saírem de perto de mim. Eu dizia Homem Negro, Mundo Branco, assustava, ta ligado? Então a ideia foi chegar assim mesmo, assustando. A capa, uma curiosidade, sou eu mesmo de criança ali com a algema. Foi um trabalho da minha escola, que era um colégio muito elitista, muito racista assim, um colégio católico, que estava comemorando 500 anos do Brasil. Eles estavam usando como tema a escravidão, colocando a rainha Isabel como heroína. E foi uma das piores sensações da minha vida, por isso que eu to com aquele olhar tão forte na cena, porque não tinham negros na minha sala, era um colégio particular, só tinha eu e mais dois alunos negros. Chegaram a fazer ate black face com uma das alunas que era menos clara do que outros alunos e pôs ela na capa. Então HNMB é pra bater forte mesmo, é o conceito mesmo, sem massagem, Homem Negro, Mundo Branco, acho que tá muito específico, ta ligado? Quem faz a leitura social de forma estrutural da sociedade vai entender, que o objetivo era ter chegado com os dois pés na porta. A próxima revolução vai vir pela música!

Capa de Homem Negro, Mundo Branco de 2016

Seu último trampo foi Gospel Gang, pela capa dá pra ver que tem a sua estética ali, qual é a importância, do visual pra você?

Delatorvi: Então, a Gospel Gang a estética principal é que eu sempre acompanhei a questão da música Gospel, tipo todos os artistas negros que são referência pra mim já foram de igreja por exemplo. Não somente pela religiosidade, mas sim pela magia. A gente muitas vezes acha que a religião cristã é eurocêntrica, mas na verdade ela se tornou, porque ela é africana, asiática, então o termo gospel vai nessa ancestralidade não branca. Eu me vesti bem parecido com um real nigga, um cristão protestante, apesar de não ter isso, ta ligado? As músicas, vai da temática até a liberdade, então a estética conta muito por isso, pois a gente é negro, extravagante. Os próprios caras de igreja são assim lá, é bem livre, apesar de aparentar religiosamente preso, mas é uma música que expande muito, ensina muito. A foto de capa foi feita pela minha prima, que também foi criada assim nessa doutrina, ela é uma mulher negra também e foi isso. O conceito da Gospel Gang é justamente a liberdade do negro, de ter orgulho da sua ancestralidade, independente do que transformaram algumas coisas em comercial, a Gospel Gang é isso: liberdade.

Capa de Gospel Gang 2018 feita por Camila Alda

Para Sempre 21 é uma música que te impulsionou, como foi o processo de criar a música e porque falar da sua realidade, de jovem negro, em frente a um loja que é frequentada majoritariamente por pessoas brancas?

Delatorvi: A própria pergunta sobre a Para Sempre 21 é uma resposta ne? A música da impressão que é só uma gastação e tal, mas na verdade eu to fazendo uma denúncia ali ao racismo, na falta de representatividade da própria loja, da Forever 21. Sempre que eu fui lá, só pessoas brancas, pessoas negras dentro da loja só funcionários, ta ligado? Apesar de ser um loja de preço popular nos EUA, aqui não tanto, mas também não é tão caro quanto C&A por exemplo, mas é muito elitista, você entra na loja e não vê ninguém igual a você. Então a sequência da refrão é pra dar esse parecer, “passei na Forever 21, mais um enquadro e tá normal”, tipo to acostumado com esse racismo de vocês. O processo de composição foi muito parecido, porque o meu engenheiro, quem faz a captação de voz das minhas músicas, ele é branco, meu amigo de infância. E eu tinha tomado um enquadro antes, o polícia cismou que eu cheirava cocaína e eu nunca nem usei esses bagulho. Ele não fez nenhuma pergunta pro meu engenheiro de áudio, que é branco, tava de chinelo, eu tava bem mais arrumado do que ele e o polícia não falou nada com ele, mas comigo falou. Então o Para Sempre 21 é bem isso, a gente vai ser visto como jovem problemático pra sempre, por ser preto, independente da roupa que você tá. A música é mais um protesto do que uma gastação, mas foi legal ver as pessoas contemplando, gostando da melodia mais aberta, o objetivo também foi expandir pro mercado, mas não deixar de deixar de falar o que deve ser falado, que pretos ainda não são normalizados no país onde a gente é maioria. Depois da Nigéria o país onde tem mais negros no mundo é o Brasil né, e é ridículo a gente ter tantos ambientes majoritariamente brancos. Por exemplo, eu to aeroporto agora e se eu olhar pro lado, ao redor, não tem ninguém parecido comigo, ta ligado? Nós vamos mudar este jogo!

Você lançou uma coleção da Para Sempre 21, quem quiser comprar as camisas e não for da região de BH ou do Estado, como faz? Só te chamar pelas redes sociais?

Delatorvi: Quem quiser comprar as camisas é só entrar em contato com o perfil da minha produtora @antehypemusic, ou pelo meu próprio perfil @delatorvi, e você vai poder comprar o merchandising da camisa, o valor é R$ 60,00 + o valor do frete dependendo da onde você é, a gente entrega em todo Brasil, pelo correio e tem um demanda de uns dias. Só que a coleção era limitada, a gente fez essa vendas já faz um mês, agora pros dois próximos shows que é Brasília (que já passou) e Rio de Janeiro (dia 12/04) a gente ta levando os merch. Vai ter mais camisas da minha marca Jovem Prince Lean, essa era a coleção Para Sempre 21, mas vai continuar tendo camisas para aumentar o nível de swag de geral aí.

Coleção Para Sempre 21

Você é de Nova Lima, região metropolitana de BH, você usa gírias mineiras nas suas músicas e até já fez um clipe usando a camisa do time local o Vila Nova, qual a relevância pra você de estar mostrando isso?

Delatorvi: Eu sou de Nova Lima, é justamente isso, eu sou do interior, eu sinto isso, porque você fala que é de Nova Lima, de Minas, a pessoa já acha que é BH, e é bem diferente, porque ser de interior e ser abraçado pela cena, mesmo que na capital, é muito mais difícil que você sendo da capital né, onde você ta num ambiente mais expandido, uma cidade mais cultural. A minha cidade é colonizada, a minha cidade tem casa grande reformada, é uma cidade muito racista, então pra gente chegar, pra mim é o dobro de dificuldade. Então, eu falo nas músicas, eu uso a camisa do Vila, porque é uma camisa que meu avô na época deu pra minha mãe, é uma camisa dos anos 60, e eu usei ali e tal. Eu cito, mas na verdade eu não me orgulho da minha cidade, na verdade eu falo mais do meu bairro que é o Cristais Bomba, que é de Nova Lima. Então eu deixo claro que eu vim de baixo, vim de baixo mesmo, do interior, no sentido de baixo não somente monetário, mas de vim de um lugar distante.

Eu já li você falando sobre o maior reconhecimento do seu trabalho em outros Estados que não seja o seu, porque você acha que isso acontece?

Delatorvi: Acredito que essa parte do reconhecimento fora seja maior justamente porque não tem uma cena, a gente não tem uma cena. A cidade começa com baixa construção de identidade, então pra um preto, periférico, pra uma pessoa alternativa ter auto estima é mais difícil, porque tá acostumado com o padronizado né mano? Mas eu acho que a visibilidade só tem a aumentar, meu público é maior em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e tá chegando, pra mim é importante. Eu também não me interesso tanto em ser tão reconhecido na minha cidade Nova Lima, porque ela já se mostrou o que é, uma das que mais votaram em Bolsonaro, que eu sou totalmente contra, então não tem porque eu ficar criando essa esperança de ser abraçado na minha cidade, mas espero chegar mais, BH o reconhecimento já é grande, então pra mim é satisfatório.

A gente sabe que aqui no Brasil os gêneros artísticos negros sofrem uma tentativa de embranquecimento, foi assim com o samba e foi assim com o rap, o que fazer pra isso não ser efetivo no Trap BR, que é relativamente novo?

Delatorvi: Acho que a estratégica é não deixar que as pessoas te anulem, porque essa apropriação, esse silenciamento ocorre, porque o homem branco passa a perceber em como é lucrativo a música preta. Se você citar as bandas de rock, você vai citar dez bandas de rock, das dez se vocêfalar de duas pessoas negras, vai ser no máximo Jimmy Hendrix e Chuck Berry, mas isso porque os caras estão num nível muito acima que qualquer artista branco de rock do mundo ta ligado? O silenciamento não é sobre talento, porque se for olhar a gente é melhor do que eles em 90% dos casos, é mais sobre saber se portar no mercado. Eu acho que o trap precisa de falar isso, porque é a unica forma que a gente tem de combater esse lucro silencioso, a segregação não ocorre só com a exposição, o racismo no Brasil age silencioso, ele vai te segregar ali, vai colar só com pessoas ricas, brancas, e vai falar como é ser negro. Então se você não tomar cuidado, eles não vão transformar só Machado de Assis em uma pessoa branca, pode ser várias pessoas, até chegar num Tupac da vida ou um Mano Brown. Pra lutar contra o embranquecimento da cultura é simplesmente priorizando artistas pretos, é a responsabilidade do próprio artista trazer mais, independente se vai ter um lucro menor ou não, porque só assim a gente vai conseguir efetivar esse protagonismo. É o movimento de Black Excellence que ocorre nos Estados Unidos, que é o dinheiro girar somente entre eles, videomakers negros, artistas negros, produtores negros, diretores negros, mulheres negras, a ideia é aumentar, chegar por meio da gente.

Você poderia falar um pouco mais sobre o seu grupo, a Savage Mob? Tem clipe pra ser lançado né?

Delatorvi: A gente ta pra lançar um clipe da faixa Uber Gang na sexta-feira que vem (dia 19/04) com a Savage Mob, é o primeiro trampo com vídeo clipe da Savage Mob e vai ser bem da hora, ta ligado? Ta louco a visibilidade, o alcance profissional do clipe ta da hora. A nossa prioridade é fazer o trap, que é um bagulho que em BH já tem há algum tempo, mas que ta passando por um processo de transformação. O público aqui é muito ainda Duelo de MCs, aquele rap mais convencional, então a Savage Mob é uma outra proposta, é um bagulho mais aberto, do trap. Pode parecer que é fechado musicalmente, mas é mais aberto por ser um ritmo mais difícil aqui, apesar de crescente, mais difícil de comercializar aqui. Então a nossa proposta é expandir isso, expandir a cultura, então a gente trabalha muito com a identidade visual e o clipe ta da hora.

Seus planos pra esse ano é soltar outra mixtape, disco, ou focar em mais clipes?

Delatorvi: Na verdade esse ano provavelmente eu não vou soltar mixtape, to continuando soltando singles com videoclipe, mas eu tenho um EP colaborativo com KK Ousado que deve sair em junho. Além disso tem o meu disco Prince, que é o meu disco solo, que vai vim um bagulho também orgânico, mas mais organizado, porque minhas gravações ainda são caseiras, o nível das minhas mixagens ainda são caseiras, mas eu pretendo focar nesse disco. Então é um EP com o KK, o meu disco e os singles que vou continuar soltando, o objetivo é lançar uma música por mês, espero ter muita novidade por ai. É isso, satisfação trocar ideia com o RND, salve.

Siga Delatorvi no Instragram pelo @delatorvi e a Savage Mob pelo @svgmob031.

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