Ardlez chega apresentando um trampo sólido em um som ‘líquido’

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O underground esconde diamantes maravilhosos e essa artista de Curitiba (PR) é mais uma dessas preciosidades. Com uma voz marcante, além de MC, ela também é uma baita produtora e vem mostrando todo seu talento desde o ano passado, com o lançamento de seu EP “Dualisme Vol.1” (disponível em todas as plataformas digitais). Esse trampo possui diversas influências do R&B e trap, é rimado todo em inglês e conta com toda produção feita pela própria Ardlez.

Dessa vez ela chegou em uma pegada totalmente diferente, com o seu novo single “Seja Água“, lançado nesta sexta (12).Desta vez colaborando com Rodrigo Zin, que ficou por conta da produção e fez um beat incrível, Ardlez manda rimas muito pessoais em um trabalho bastante denso liricamente. É muito interessante ver as diferenças entre esse som e os do ano passado, mostrando ainda mais a versatilidade dessa mina incrível.

Sempre acaba chovendo aqui, yeah
De um espelho me tornei água e fluí
Nas correntes que já não mais correm em mim
E mesmo das fontes que tentam se ressequir

É assim que Ardlez canta no refrão e não existiria palavra melhor para definir essa música do que “líquida”. Passeando por um meio intra e interpessoal, ela mostra diversos elementos muito particulares, mas ao mesmo tempo, que causam uma identificação muito grande. Por isso esse som pode receber essa definição, porque ele soa como estivesse se adaptando em cada ouvido que ele passa.

A causa principal disso tudo é a forma como que a escrita de Ardlez funciona. Nela não há uma preocupação em definir um significado explícito para determinadas linhas, mas sim conseguir criar imagens através das palavras. Soando quase como um artista expressionista, através dessas construções meio “abstratas”, ela expõe seu interior ao mesmo tempo que cria uma interpretação livre para quem escuta. Como uma realidade distorcida que através da identificação, torna-se clara e compreensível.

E ouro era eu, mas não soube te ter nas minhas…
Ela se perdeu ao descansar em cinzas
E isso tudo ardeu mas não perdi a vida
Só pra me lembrar que hoje ela anda corrida

Pode ser fácil considerar que na verdade que isso é algo inconsciente e depende muito mais do ouvinte do que do artista, porém Ardlez sabe muito bem o que está escrevendo e cantando. Muito pelo contrário, ela é muito consciente do que diz, e prova isso a todo momento do som. Tudo acaba funcionando como um artista que vai pintando de acordo com seus sentimentos e o pincel vai viajando pela tela naturalmente, mas com total controle do pintor. Tudo bem fluído, como uma correnteza.

Si quiero me toco el alma pues mi carne ya no es nada
E eu me lamentando no silêncio ao som de 80 balas
Aos bons entendedores as palavras já não bastam
Que ironia, triste simpatia sinto por ter perdido parte da minha casca
Ou melhor, da minha alma

Então confira, “Seja Água”:

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